Pureza Orgânica

Postado em
28 de Janeiro de 2013

Você que toma bastante água, pratica exercícios físicos, visita o médico regularmente e procura se alimentar bem, está seguro de que está fazendo tudo pela sua saúde? Pois há um aspecto que talvez não perceba e que pode trazer prejuízos a longo prazo: os agrotóxicos usados na produção de alimentos.

Um dossiê publicado recentemente pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) revelou que um terço dos alimentos consumidos pelos brasileiros está contaminado por agrotóxicos. Destes, 28% contém ingredientes ativos não autorizados, de elevado grau de toxicidade e que causam problemas neurológicos, reprodutivos, desregulação hormonal e até câncer.

Segundo Luiz Augusto Fachini, presidente da Abrasco, o estudo poderá orientar políticas e pesquisas dos órgãos públicos no país:
- Está claro que o governo deve investir na produção de alimentos limpos como forma de proteger a população.

Hoje, a principal alternativa do consumidor para evitar os agrotóxicos são os alimentos orgânicos, um mercado que cresce 40% ao ano no mundo. Segundo o chef de cozinha Cesar Sperotto, as pessoas estão buscando nesse segmento alternativas para tratamento de saúde, como câncer, hipertensão ou doenças relacionadas ao consumo de glúten e lactose. - Essa não é mais uma tendência, é um caminho sem volta – diz Spertotto, cuja empresa, a OrganicBaby, passou por um processo de auditoria para certificar seus produtos como orgânicos.

Desde 2010, quando passou a vigorar a certificação de produtos orgânicos do Ministério da Agricultura (Mapa), o selo da certificação orienta o consumidor na hora da compra. O regulamento estabelece novas modalidades de certificação, como a participativa, em que um agricultor certifica outros agricultores por meio de visita às propriedades.

Reunidos em um Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade (Opac), agricultores, consumidores e técnicos da Rede Agroecológica Metropolitana visitam e fiscalizam, uma vez por mês, as lavouras de alimentos orgânicos. A visita mais recente, no dia 22, ocorre na propriedade de Salvador da Silva, o Dodô, no Lami, zona sul de Porto Alegre.
- Uma planta é um arsenal de saúde. Serve de alimento, mas tem vários outros fins, até remédio – afirma o agricultor.

Saúde em primeiro lugar

Preocupação com o ambiente ou com o lado social da agricultura podem até ser relevantes para quem frequenta um feira de alimentos orgânicos. Mas, segundo os produtores, é o cuidado com a saúde o principal argumento que atrai o cliente.
Muitos chegam com recomendação médica para comer orgânicos, porque estão fazendo quimioterapia ou têm alergia – conta o agricultor José Matias, o Jalo, de Eldorado do Sul.
Jalo explica que comprar na feira tem um diferencial em relação aos alimentos do supermercado: a produção é ecológica. No sistema orgânico, afirma, não se usa agrotóxicos. Além disso, são levados em consideração os demais aspectos envolvidos na produção, desde o descarte do lixo até a saúde do agricultor.

Tanto que a produção de Jalo serve, primeiro, para alimentar a própria família. Apenas o excedente é vendido.
O engenheiro agrônomo da Emater Ari Uriartt lembra que os agrotóxicos surgiram de adaptações dos produtos bélicos para uso na agricultura moderna. O problema, segundo ele, é que essa substâncias químicas acabam comprometendo os nutrientes contidos nos alimentos.

- As pessoas pensam que estão comendo algo saudável, mas na verdade não sabem que estão cometendo comida morta – afirma Uriartt.

Feiras são opção

A feira orgânica é parada obrigatória para a educadora física Tatiana Redivo. Sempre que pode, ela aproveita as horas livres para dar uma passada em uma delas. Em casa, é a responsável pelo rancho da família, e assim garante a saúde à mesa.

- Penso no futuro. Tem muita informação hoje em dia, então é melhor investir.
Segundo Tatiana, quem vai a feira deve ter em mente que determinados produtos não estarão disponíveis em todas as épocas. Para ela, isso é irrelevante, se considerar o sabor, a qualidade e pureza dos alimentos orgânicos.

Brasil lidera uso de agrotóxicos

Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) registraram que, em 2010, a presença de produtos químicos mos alimentos brasileiros cresceu 190% em relação ao ano anterior. Naquele ano, a América Latina consumiu 22% da produção de agrotóxicos, sendo 19% no Brasil, o maior mercado mundial desses produtos.

O dano à saúde depende do tipo de exposição ao agrotóxico, explica a médica e pesquisadora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Neice Muller Xavier.
- Vai depender também da bagagem genética de cada um – explica ela.

Segundo Neice, pesquisas médicas estão deixando claro que a exposição a agrotóxico é um fator de risco para doenças como o câncer. Algumas neuropatias (problemas de nervos periféricos) são evidenciadas quando ocorre contaminação por organofosforados (substâncias químicas que contém carbono e fósforo) e carbonatos (princípios ativos de inseticidas comerciais). Também há evidências científicas que associam casos de suicídio e depressão entre os agricultores à utilização de agrotóxicos em suas lavouras.